sábado, 14 de março de 2026

João 9, 1.6-9.13-17.34-38 Jesus cura a cegueira dos homens.

* 1 Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. 6 Dizendo isso, Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva e com o barro ungiu os olhos do cego. 7 E disse: “Vá se lavar na piscina de Siloé.” (Esta palavra quer dizer “O Enviado”). O cego foi, lavou-se, e voltou enxergando. 8 Os vizinhos e os que costumavam ver o cego, pois ele era mendigo, perguntavam: “Não é ele que ficava sentado, pedindo esmola?” 9 Uns diziam: “É ele mesmo.” Outros, porém, diziam: “Não é ele não, mas parece com ele.” Ele, no entanto, dizia: “Sou eu mesmo.” Pior cego é aquele que não quer ver -* 13 Então levaram aos fariseus aquele que tinha sido cego. 14 Era sábado o dia em que Jesus fez o barro e abriu os olhos do cego. 15 Então os fariseus lhe perguntaram como é que tinha recuperado a vista. Ele disse: “Alguém colocou barro nos meus olhos, eu me lavei, e estou enxergando.” 16 Então os fariseus disseram: “Esse homem não pode vir de Deus; ele não guarda o sábado.” Outros diziam: “Mas como pode um pecador realizar esses sinais?” 17 E havia divisão entre eles. Perguntaram outra vez ao que tinha sido cego: “O que você diz do homem que abriu seus olhos?” Ele respondeu: “É um profeta.” 34 Eles disseram: “Você nasceu inteirinho no pecado e quer nos ensinar?” E o expulsaram. Jesus torna cegos os que pensam ver -* 35 Jesus, ouvindo dizer que tinham expulsado aquele que fora cego, foi à procura dele e perguntou-lhe: “Você acredita no Filho do Homem?” 36 Ele respondeu: “Quem é ele, Senhor, para que eu acredite nele?” 37 Jesus disse: “Você o está vendo; é aquele que está falando com você.” 38 O cego que tinha sido curado disse: “Eu acredito, Senhor.” E se ajoelhou diante de Jesus. 39 Então Jesus disse: “Eu vim a este mundo para um julgamento, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.” 40 Alguns fariseus que estavam perto dele ouviram isso e disseram: “Será que também somos cegos?” 41 Jesus respondeu: “Se vocês fossem cegos, não teriam nenhum pecado. Mas como vocês dizem: ‘Nós vemos’, o pecado de vocês permanece.” Comentário: * 1-12: O cego de nascença simboliza o povo que nunca tomou consciência de sua própria condição de oprimido, e por isso não chegou a ver a verdadeira condição humana, o objetivo para o qual Deus o criou. A missão de Jesus, e dos que acreditam nele, é mostrar essa possibilidade, a partir de uma prática concreta, mais do que com palavras. * 13-34: A ação de Jesus abala as ideias religiosas dos representantes do poder. Estes, em primeiro lugar, procuram transformar o fato em fraude. Não o conseguindo, recorrem à sua própria autoridade, para definirem o que está ou não de acordo com a vontade de Deus. Apegados a suas ideias, negam o que é evidente e invertem as coisas, defendendo a todo o custo sua posição de privilégio e poder. Para eles, Deus prefere a observância da Lei ao bem do homem. Por fim, recorrem à violência, expulsando o homem da comunidade, marginalizando-o. Pretendendo possuir a luz, eles se tornam cegos e querem cegar os outros. * 35-41: Curado por Jesus, o homem enfrenta a luta com os dirigentes de uma sociedade cega que o afasta. Como consequência, ele passa então para uma nova comunidade e começa seu novo culto. Por outro lado, os dirigentes não querem aceitar essa realidade e por isso permanecem intransigentes dentro da instituição opressora. Este é o julgamento de Jesus. No nosso batismo, aqui simbolizado pelas águas da fonte de Siloé, recebemos a luz que nos torna filhos de Deus. As trevas, em que vivia o cego e na qual vivemos antes de conhecer Cristo, são iluminadas pela luz verdadeira: Jesus Cristo. É importante notar, na narração de João, que, para “vermos” a luz, é preciso antes reconhecermos nossa condição de “cegueira”; para sairmos da condição de trevas e escuridão, seja natural ou espiritual, precisamos confiar na palavra de Jesus e aceitar a sua ação salvífica. Quantos cristãos ainda vivem na escuridão por não aceitarem plenamente a beleza do Evangelho em sua vida, ou por receio de se entregar totalmente ao projeto que Deus traçou para nós!

Efésios 5, 8-14 Imitar a Deus.

8 Outrora vocês eram trevas, mas agora são luz no Senhor. Por isso, comportem-se como filhos da luz. 9 O fruto da luz consiste em toda bondade, justiça e verdade. 10 Saibam discernir o que é agradável ao Senhor. 11 Não participem das obras estéreis das trevas; pelo contrário, denunciem tais obras. 12 Dá até vergonha dizer o que eles fazem às escondidas. 13 Porém, tudo o que é denunciado, torna-se manifesto pela luz, 14 pois tudo o que se torna manifesto é luz. É por isso que se diz: “Desperte, você que está dormindo. Levante-se dentre os mortos, e Cristo o iluminará.” Comentário: * 1-20: Paulo traz uma série de exortações e conselhos para que os cristãos vivam autenticamente a sua fé. Os vv. 1-2 apresentam o princípio que rege a vida nova: imitar a Deus, vivendo o amor, como viveu Jesus Cristo. Em outras palavras, os cristãos são e devem viver como filhos de Deus, tendo como modelo supremo o ato de amor de Cristo na cruz, onde ele entregou sua vida por todos. A vida nova compreende a renovação de todas as atitudes do homem: essa é a resposta livre ao dom de Deus.

sexta-feira, 13 de março de 2026

Lucas 18, 9-14 A justificação é dom de Deus.

* 9 Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: 10 “Dois homens subiram ao Templo para rezar; um era fariseu, o outro era cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. 12 Eu faço jejum duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. 13 O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ 14 Eu declaro a vocês: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será elevado.” Comentário: * 9-14: Não basta ser perseverante e insistente. É preciso reconhecer e confessar a própria pequenez, recorrendo à misericórdia de Deus. De nada adianta o homem justificar a si mesmo, pois a justificação é dom de Deus. A Quaresma é um tempo propício para intensificarmos nossas orações, conscientes de que a oração é o caminho para entrar em contato com a verdade mais profunda de nós mesmos, onde a luz do próprio Deus está presente. O Evangelho hoje proposto para a nossa meditação recorda exatamente isso. Ao nos recolhermos para a oração e entrarmos em diálogo com Deus, acabamos por revelar o que há de mais profundo no nosso coração. Alguns, humildemente, expressam seus arrependimentos e preocupações, reconhecendo que Deus é o farol que os guia para um porto seguro. Outros podem manifestar sua autossuficiência e incapacidade de confiar plenamente em Deus, demonstrando que sua oração é superficial e formal, feita por uma obrigação ritual sem sentido.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Marcos 12, 28-34 O centro da vida.

* 28 Um doutor da Lei estava aí, e ouviu a discussão. Vendo que Jesus tinha respondido bem, aproximou-se dele e perguntou: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” 29 Jesus respondeu: “O primeiro mandamento é este: Ouça, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor! 30 E ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. 31 O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois.” 32 O doutor da Lei disse a Jesus: “Muito bem, Mestre! Como disseste, ele é, na verdade, o único Deus, e não existe outro além dele. 33 E amá-lo de todo o coração, de toda a mente, e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo, é melhor do que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios.” 34 Jesus viu que o doutor da Lei tinha respondido com inteligência, e disse: “Você não está longe do Reino de Deus.” E ninguém mais tinha coragem de fazer perguntas a Jesus. Comentário: * 28-34: Jesus resume a essência e o espírito da vida humana num ato único com duas faces inseparáveis: amar a Deus com entrega total de si mesmo, porque o Deus verdadeiro e absoluto é um só e, entregando-se a Deus, o homem desabsolutiza a si mesmo, o próximo e as coisas; amar ao próximo como a si mesmo, isto é, a relação num espírito de fraternidade e não de opressão ou de submissão. O dinamismo da vida é o amor que tece as relações entre os homens, levando todos aos encontros, confrontos e conflitos que geram uma sociedade cada vez mais justa e mais próxima do Reino de Deus. Os doutores da Lei, ou rabis, tentavam se destacar apresentando alguma novidade na interpretação da Lei. É famosa, por exemplo, a máxima do rabi Hilel que procurou resumir toda a Lei em uma única ação: “Não faça ao próximo o que é odioso a você”. De fato, era sempre mais difícil ater-se a todos os mandamentos e preceitos criados pelos judeus a partir do decálogo de Moisés. Ao todo existiam, no tempo de Jesus, 248 mandamentos e 365 proibições. Ao anunciar o Evangelho do Reino e do amor, Jesus não poderia deixar de mencionar o mandamento do amor, já presente nos livros de Deuteronômio e Levítico: “Ame a Yhwh, o seu Deus, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças” (Dt 6,5) e “Ame seu próximo como a si mesmo” (Lv 19,18).

quarta-feira, 11 de março de 2026

Lucas 11, 14-23 Jesus é mais forte do que Satanás.

* 14 Jesus estava expulsando um demônio que era mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as multidões ficaram admiradas. 15 Mas alguns disseram: “É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios.” 16 Outros, para tentar Jesus, pediram-lhe um sinal do céu. 17 Mas, conhecendo o pensamento deles, Jesus disse: “Todo reino dividido em grupos que lutam entre si, será destruído; e uma casa cairá sobre outra. 18 Ora, se até Satanás está dividido contra si mesmo, como o seu reino poderá sobreviver? Vocês dizem que é por Belzebu que eu expulso os demônios. 19 Se é através de Belzebu que eu expulso os demônios, através de quem os filhos de vocês expulsam os demônios? Por isso, eles mesmos hão de julgar vocês. 20 Mas, se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus chegou para vocês. 21 Quando um homem forte e bem armado guarda a sua casa, os bens dele estão em segurança. 22 Mas, quando chega um homem mais forte do que ele e o vence, arranca-lhe a armadura na qual ele confiava, e reparte o que roubou. 23 Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, dispersa.” Comentário: * 14-23: A cura do endemoninhado mostra que a ação de Jesus consiste em libertar o homem da alienação que o impede de falar. A ação de Jesus testemunha a chegada do Reino de Deus, pois para vencer Satanás é preciso ser mais forte do que ele. Mas Jesus é, ao mesmo tempo, a presença da salvação e do julgamento: quem não age com Jesus, torna-se adversário. A questão do exorcismo e da luta contra o demônio ainda hoje é controversa. Muitos não creem na presença e na ação de demônios no mundo, enquanto outros os veem em todos os lados. Presença simbólica ou real, o que importa é que a vitória de Cristo sobre o mal e sobre as forças de Beelzebu é real e transforma a nossa vida, mostrando que devemos nos ater ao amor de Deus que constrói, e não ao poder do mal que destrói e corrompe, que leva à divisão e à ruína. Quando seguimos o Evangelho, não há mais espaço para qualquer ação do demônio: estamos com Cristo e passamos a recolher e edificar com ele.

terça-feira, 10 de março de 2026

Mateus 5, 17-19 A lei e a justiça.

* 17 “Não pensem que eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento. 18 Eu garanto a vocês: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem sequer uma letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo aconteça. 19 Portanto, quem desobedecer a um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino do Céu. Por outro lado, quem os praticar e ensinar, será considerado grande no Reino do Céu. Comentário: * 17-20: A lei não deve ser observada simplesmente por ser lei, mas por aquilo que ela realiza de justiça. Cumprir a lei fielmente não significa subdividi-la em observâncias minuciosas, criando uma burocracia escravizante; significa, isto sim, buscar nela inspiração para a justiça e a misericórdia, a fim de que o homem tenha vida e relações mais fraternas. Em 5,21-48, Mateus apresenta cinco exemplos, para mostrar como é que uma lei deve ser entendida. O Novo Testamento não representa uma ruptura com o Antigo, mas sim uma continuidade que leva à plenitude. Portanto, Jesus Cristo não veio para abolir o caminho feito pelo povo ao longo de séculos, quando Deus se revelava aos poucos, lentamente, através dos patriarcas e dos profetas. Veio, sim, para levar à perfeição essa revelação, mostrando-se por completo. O Deus invisível se torna visível, o Deus que se revelou através da palavra agora se revela através da imagem, assumindo um corpo humano. Jesus é a revelação plena do Deus Uno e Trino, e como tal exige do povo obediência e fé perfeitas, praticando a Lei que agora assume nova forma: a do Evangelho. Antigo e Novo Testamento, portanto, formam uma unidade, pois apresentam a totalidade do plano divino da salvação, que exige a fé como resposta e sinal de adesão humana a tal projeto. Se olharmos para a nossa vida hoje, quanto do Evangelho é refletido nela? O referencial para nossas ações, relações, educação, trabalho, convívio, e assim por diante, são os valores evangélicos e a mensagem de Jesus, ou nos guiamos por outras leis?

segunda-feira, 9 de março de 2026

Mateus 18, 21-25 Perdoar sem limites.

* 21 Pedro aproximou-se de Jesus, e perguntou: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” 22 Jesus respondeu: “Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. 23 Porque o Reino do Céu é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. 24 Quando começou o acerto, levaram a ele um que devia dez mil talentos. 25 Como o empregado não tinha com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. 26 O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, ajoelhado, suplicava: ‘Dá-me um prazo. E eu te pagarei tudo’. 27 Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado, e lhe perdoou a dívida. 28 Ao sair daí, esse empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem moedas de prata. Ele o agarrou, e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague logo o que me deve’. 29 O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dê-me um prazo, e eu pagarei a você’. 30 Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. 31 Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão, e lhe contaram tudo. 32 O patrão mandou chamar o empregado, e lhe disse: ‘Empregado miserável! Eu lhe perdoei toda a sua dívida, porque você me suplicou. 33 E você, não devia também ter compaixão do seu companheiro, como eu tive de você?’ 34 O patrão indignou-se, e mandou entregar esse empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. 35 É assim que fará com vocês o meu Pai que está no céu, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.” Comentário: * 21-35: Na comunidade de Jesus não existem limites para o perdão (setenta vezes sete). Ao entrar na comunidade, cada pessoa já recebeu do Pai um perdão sem limites (dez mil talentos). A vida na comunidade precisa, portanto, basear-se no amor e na misericórdia, compartilhando entre todos esse perdão que cada um recebeu. A Quaresma é um tempo propício para refletirmos sobre o arrependimento, mas também sobre o perdão. Perdoar não significa esquecer ou tolerar o mal, mas é um ato de amor, compaixão e misericórdia. Jesus ensina seus discípulos a perdoarem setenta vezes sete, ou seja, infinitas vezes. Ele nos mostra que devemos perdoar nossos irmãos e irmãs sempre, sem limites, assim como Deus nos perdoa. Quem já fez a experiência do perdão sincero e profundo sabe que essa é uma ação libertadora, que enche de alegria tanto a pessoa perdoada quanto a que perdoa. Que tal começarmos hoje a praticar o perdão em tudo, desde as coisas mais simples até as grandes ofensas que fazem doer nosso coração e nossa alma?